In Virtus Início » Palavras ditas » Acordo ortográfico - mais uma acha para a fogueira

Acordo ortográfico - mais uma acha para a fogueira

Repensar o acordo ortográfico continua a ser tema de actualidade. A construção de um novo acordo já começou. Inicia-se sempre no dia seguinte à sua entrada em vigor. Nessa perspectiva de futuro, aqui fica uma opinião de quem usa as palavras no dia a dia, como projecto de vida, de trabalho e de sonhos.

Sr. Dr. José Manuel Ruas

"Ando há meses a fazer um esforço - mesmo a sério - para expurgar os meus maus espíritos neo-ortográficos.

Não me tenho empoeirado em textos arcaicos, mas tenho contactado muito de perto com o dizer e escrever do povo brasileiro (eles estão a anos-luz à nossa frente em matéria de alfabetização, por exemplo). Esta aproximação - pensava eu - talvez varresse a urticária ortográfica que tantas comichões me dá. Em vão. Fiquei pior.

O abismo linguístico que nos separa é cada vez maior. Escrever (grafar, como dizem os brasileiros) é a parte menor da comunicação. Fala-se incomensuravelmente mais do que se escreve. E pretender fazer do acordo (na parte minoritariamente insignificante da escrita) a bandeira da aproximação entre dois povos, permite relembrar a estatística do próprio acordo (1,6% de alterações ao vocabulário português e 0,45% de mudanças no Brasil) e o impacto que uma gota de água pode ter no oceano da tal aproximação.

O problema da escrita tem origem na fala. Só os brasileiros conseguem rimar nós com sóis e mais cedo ou mais tarde, em nome da aproximação passaremos também a escrever nóis? Ou mudaremos as regras dos tipos de rima?

E se quanto à fala não há nada a fazer, quanto à escrita ainda há. Quando se fala na história (e não estória) da aproximação, estaremos a falar de aproximação cultural ou aproximação de interesses de grupos económicos?

Em nenhuma outra parte do mundo as diversas línguas "fugiram" da língua mãe como o português do Brasil. Ouça-se e leia-se o espanhol e o francês espalhado pelo mundo.

Fico estarrecido ao ver na televisão o anúncio do novo sumo de goiaba e só perceber o que é dito, na íntegra, à terceira ou quarta vez, não conseguindo impedir que o pensamento me leve outra e outra vez para as consequências que tal forma de falar terão um dia na escrita.

Há coisas erradas no acordo actual, como noutros passados. Nós suprimimos, no acordo anterior, a acentuação de palavras (acentuadas) com o sufixo -mente, -zinho, -zito. Criamos palavras que ferem a nossa sensibilidade: cafezinho, Zezinho, somente... Os espanhóis, perante a mesma situação, mantiveram a acentuação.

Aliás, e a propósito, esta gente ilustre dos acordos já provou que tudo o que agora se estabelecer, pode amanhã desfazer-se. E isso tranquiliza-me mais. Eu já passei, como muitos amigos aqui, pelas seguintes versões ortográficas: sòmente, sómente e somente - cafèzinho, cafézinho e cafezinho...

Saramago não permitiu que as suas obras fossem reescritas com a escrita da moda. Não conheço as razões.


Aproximação?
- Sim, meu amorrrrrrrrrr ! Mas com jeito, tá? :)

Acordo ortográfico?
- Tou nem aí !"

José Manuel Ruas Martins de Pinho

Comentários


Entre para comentar ou registe-se aqui.